• Livrearte Editora

Livros do mês de Abril - Projeto Cora

Em abril de 2021, iniciamos o Projeto Cora, com a finalidade de proporcionar aos e às adolescentes um espaço no qual o acesso à literatura e as trocas a partir das leituras tivessem seu lugar. A partir do olhar cuidadoso para as faixas etárias que atendemos, dividimos os grupos em dois: AYO (12 a 14 anos) e KIANGA (15 a 18 anos). Dessa maneira, cada grupo recebe a devida atenção conforme as suas necessidades, tanto no que diz respeito aos livros selecionados, quanto às discussões e atividades propostas nos encontros semanais. Sim, além de receberem um livro por mês, a galerinha participa de um encontro semanal (virtual) para que possamos transbordar a partir da literatura. Ah, um detalhe bem importante é o seguinte, a Livrearte proporciona aos e às adolescentes encontro com os autores e autoras dos livros que enviamos, sempre que possível. Conseguem imaginar a alegria de poder bate-papo com quem escreveu seu livro favorito? Pois é, por aqui isso é uma realidade!

 

Voltando ao primeiro mês do projeto, inauguramos essa jornada com dois livros bem especiais: “O que pegamos emprestado dos outros”, de Marcelo Jucá (AYO);

e “Tudo ali dentro era outra”, de Teresa Dantas (KIANGA).

O AYO passou o mês de abril refletindo sobre aquilo que somos e gostamos a partir de nossa própria personalidade, e o que passamos a gostar a partir de um “empréstimo” de gostos e hábitos alheios. Tudo isso a partir de uma personagem-narradora, Yasmim, que compartilha suas inquietações de forma rítmica e profunda.

Uma das criações do AYO foi uma carta, destinada a personagem Rebeca, irmã de Yasmin. Essa carta surgiu de uma inquietação dos próprios leitores em relação a Beca e ao destino dela dentro da história. Vem conferir:


Querida Ioiô,
Tô indo... Ando um tanto ocupada, por isso demorei a responder.
Estou vivendo algumas aventuras, estou seguindo meu sonho. O sonho de ser livre, viver minha própria vida sem ter meus pais me mandando o que fazer ou quando fazer, estou apenas vivendo. Onde estou é maravilhoso e queria poder te trazer para cá, mas isso ainda não está nos planos. Arrumei um emprego e quase estou comprando uma casa, e assim que conseguir te trarei comigo.
Essa carta, na real, é para te contar que escondi um presentinho pra você aí em casa. Papai e mamãe não queriam que você tivesse isso, mas sei que você vai cuidar direitinho. Acham que você ainda é pequena demais e vai perder, só que o presente é meu e eu escolho pra quem dou, eu escolho dar pra você. Esse presente é muito importante pra mim, porque foi a vovó quem me deu, espero que você goste Ioiô! Você deve estar se perguntando qual é o presente. Eu não vou te contar exatamente o que é, mas vou te dar uma dica: ele é pequeno, talvez até insignificante para as pessoas, mas sei que você tem um olhar diferente para as coisas.
Deixei a chave para abrir a caixinha na segunda gaveta do meu armário. Quando for procurar a caixa lembre-se da nossa música: “passarinhos, soltos a voar dispostos a achar um ninho, nem que seja no peito um do outro”. Não vou revelar mais nesta carta, porque não sei em que mãos ela pode cair, mas você sabe qual é, eu sei que sabe e o que significa.
E Ioiô, posso te pedir uma coisa? Queria que você dissesse aos nossos pais que sinto muita saudade e que mesmo depois de todo esse tempo ainda quero vê-los de novo.
Com carinho,
B
 

Além disso, os adolescentes tiveram a honra de conversar, em uma de nossas rodas, com Marcelo Jucá e Raquel Matsushita. Escutamos sobre o processo de criação e o que inspiraram esses dois artistas na construção dessa obra, que tem uma temática profunda, contada de forma leve, ritmada e descontraída. As ilustrações enriquecem lindamente a trama e nos conta por isso só, um tanto mais sobre quem é Yasmim. Aliás, deem uma olhada no que o Marcelo nos escreveu:

Cada encontro com o pessoal da livrearte revelou uma surpresa, uma conexão, um futuro.
A história do livro -- pelo menos na tentativa -- é dura, é um ralado chato de curar. Doeu para escrever, a ideia é que seja dolorido de ler. Então, fiquei muito curioso para ver e ouvir as perguntas e reações dos jovens do projeto.
As perguntas foram poucas, e não entendi a princípio. As reações, por outro lado, foram pipocando depois. E aí bastou juntar os pontos (até para dar conta da ansiedade que qualquer autor enfrentaria na situação).
Que pergunta fazer, se ainda havia tanta coisa sendo elaborada? Num contexto de reclusão, onlines (no lugar dos jovens, adoraria fazer perguntas, mas lembro com clareza do tamanho da minha timidez nessa fase...), dias repletos de novidades e medos.
A leitura em si, aparentemente, trouxe as perguntas, os questionamentos, mas não para o autor, e sim para eles.
Sobre as famílias, as empatias, as mudanças, as segundas chances. Sobre como ser e estar no mundo que tem mudado em largas escalas.
Com os questionamentos, as reações surgiram em um sorriso captado, uma frase, um desenho. No projeto que segue, mergulhando em leituras diferenciadas, compondo um cenário diverso e com muitas qualidades.
Amei emprestar um pedaço meu para contribuir com essa comunidade em meio a tantas travessias.
Que siga linda e siga livre.
 

O KIANGA iniciou essa jornada com a personagem Laura, como um espelho necessário para a estrutura que dita como os corpos devem ser, sem considerar a dor que padrões de beleza causam desde a infância. Afinal, estamos falando de uma personagem prestes a completar dez anos, que não quer uma festa de aniversário porque se acha cada vez mais feia e fora de qualquer padrão aceito. A narrativa é necessária e muito potente. A voz dessa criança nos conecta diretamente com a nossa própria infância e a colheita a partir das experiências dessa fase da vida.

Um dos exercícios de escrita propostos a partir dessa leitura foi exatamente o olhar-se no espelho e descrever o que se vê. Confira, a seguir, a prosa criada por uma das assinantes do Projeto:

Eu me olho no espelho e vejo tudo aquilo que eu gostaria de ser. Não me entenda mal, não chego nem aos pés das expectativas que já criei em torno desse assunto. Já quis ter o corpo padrão, o cabelo padrão e o rosto padrão. Já fui me deitar chorando, esperando que no dia seguinte isso acontecesse. E adivinhem só, não aconteceu. Essas cicatrizes ainda estão aqui dentro - as físicas e as psicológicas. Mas, eu vejo uma menina boa, com inúmeras qualidades e milhares de defeitos. Sou feita de carne e osso. Com as coxas grossas, nariz de fusquinha e bochechas de esquilo. Com as gordurinhas na lateral das costas, o pé grandão e os olhinhos pequenininhos. Hoje me sinto feliz com o que eu vejo, agradeço pela mulher que me torno dia após dia. Independente daquilo que o mundo insiste em colocar na minha cabeça. O que eu sou ninguém pode mudar. E esse o meu maior orgulho ao me ver no espelho.

A roda Kianga também contou com a presença da autora, Teresa Dantas, em uma das rodas semanais. Foi a primeira vez da Teresa em um clube de leitura e, por mais interessante que isso possa ser, também foi a primeira vez que os assinantes tinham contato com um autor dentro do Projeto.


Se interessou e quer fazer parte? Ou quer indicar pra alguém?



10 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo